Como um país pobre e predominantemente rural abriu sua economia, aprendeu com o capital estrangeiro, construiu gigantes industriais e tecnológicos e passou a disputar espaço entre os principais polos mundiais de inovação. E o que essa transformação pode ensinar ao Brasil.
Durante muito tempo, falar em produto chinês era quase sinônimo de falar em produto barato. No imaginário de boa parte do Ocidente, a China era vista como uma enorme fábrica: recebia projetos desenvolvidos em outros países, utilizava mão de obra abundante e os devolvia ao mundo em forma de produtos de baixo custo.
Essa imagem não surgiu do nada. A industrialização voltada às exportações foi parte importante da transformação chinesa. O problema é continuar utilizando essa fotografia para explicar a China atual.
A China de hoje não apenas fabrica. Desenvolve automóveis elétricos, baterias, drones, equipamentos de telecomunicações, plataformas digitais, sistemas de pagamento, robótica e inúmeras outras tecnologias. Também experimenta novas maneiras de fabricar, vender, entregar e consumir.
Em 2025, a China entrou pela primeira vez entre as dez economias mais bem colocadas no Índice Global de Inovação da Organização Mundial da Propriedade Intelectual. O país ficou na décima posição.
Mao Zedong morreu em 1976. Dois anos depois, a China iniciou o período que ficou conhecido como Reforma e Abertura, associado principalmente à liderança de Deng Xiaoping.
A mudança não transformou a China em uma economia liberal nos moldes ocidentais. O Partido Comunista continuou controlando politicamente o país e o Estado permaneceu extremamente importante na economia.
O que mudou foi a maneira de utilizar o mercado.
Capital estrangeiro, comércio internacional, empresas privadas, investimentos industriais e mecanismos de mercado passaram a ocupar espaços que seriam difíceis de imaginar durante grande parte do período de Mao.
Nas décadas seguintes, essa abertura não foi simplesmente abandonada. Ela foi modificada e aprofundada em determinadas áreas, enquanto o Estado continuou exercendo forte influência sobre setores considerados estratégicos.
Um marco da integração chinesa ao comércio mundial ocorreu em 11 de dezembro de 2001, quando a China tornou-se oficialmente membro da Organização Mundial do Comércio.
Talvez nenhum lugar conte essa história tão bem quanto Shenzhen.
Localizada imediatamente ao norte de Hong Kong, a região possuía atividades ligadas à pesca, agricultura e pequenas comunidades antes da grande transformação econômica que a converteria em uma das primeiras Zonas Econômicas Especiais da China, em 1980.
Shenzhen não foi importante apenas porque recebeu fábricas.
Reformas econômicas poderiam ser experimentadas em uma área delimitada, observadas e, quando consideradas bem-sucedidas, aproveitadas em outras regiões do país.
Essa lógica ajuda a compreender uma característica que décadas depois reaparece no ambiente empresarial chinês.
Atualmente, Shenzhen integra um dos mais importantes ecossistemas tecnológicos chineses. Empresas reais ligadas à cidade incluem Huawei, Tencent, DJI e BYD.
Em 2025, o cluster de inovação Shenzhen–Hong Kong–Guangzhou apareceu na primeira posição mundial no levantamento de clusters de inovação da Organização Mundial da Propriedade Intelectual.
Seria igualmente errado reescrever a história dizendo que a China sempre foi uma potência de inovação.
Durante seu processo de industrialização, empresas chinesas aprenderam produzindo para companhias estrangeiras, importando equipamentos, absorvendo conhecimento industrial, realizando engenharia reversa e desenvolvendo fornecedores locais.
Também existiram e continuam existindo disputas internacionais envolvendo propriedade intelectual, transferência de tecnologia, subsídios e acesso ao mercado chinês.
Mas alguma coisa aconteceu durante esse processo.
Empresas chinesas começaram a deixar de competir somente pelo preço e passaram a competir também por engenharia, escala, velocidade e tecnologia.
A BYD tornou-se uma grande fabricante de veículos eletrificados e baterias. A DJI construiu presença internacional no mercado de drones. A Huawei tornou-se uma das grandes empresas mundiais de telecomunicações. A Tencent construiu um gigantesco ecossistema digital.
Inovação não significa somente inventar uma tecnologia completamente nova.
Também pode significar encontrar uma maneira melhor de produzir, combinar, vender, financiar, distribuir ou utilizar tecnologias que já existem.
Nesse sentido, a China tornou-se particularmente interessante.
Seu enorme mercado interno, a concentração de fornecedores, a infraestrutura industrial e logística, o comércio eletrônico e a competição entre empresas permitem que produtos e modelos comerciais sejam testados rapidamente.
Uma ideia pode ser fabricada, apresentada ao consumidor, modificada e novamente colocada no mercado em ciclos rápidos.
Politicamente, a República Popular da China permanece sob o comando do Partido Comunista Chinês.
Economicamente, entretanto, a palavra “comunista”, utilizada sozinha, explica pouco sobre o funcionamento atual do país.
Empresas privadas convivem com grandes empresas estatais. Existem mercados de capitais, investimento estrangeiro, empresários privados e competição comercial, ao mesmo tempo em que o Estado mantém enorme capacidade de direcionar crédito, infraestrutura e setores considerados estratégicos.
É justamente essa combinação entre mercado, planejamento estatal, empresas privadas e controle político que torna o modelo chinês peculiar — e também objeto de intensa discussão.
Esse é um ponto em que uma análise responsável precisa evitar tanto a negação quanto a generalização.
Existem denúncias documentadas internacionalmente sobre trabalho forçado envolvendo uigures e outras minorias predominantemente muçulmanas, particularmente relacionadas à Região Autônoma Uigur de Xinjiang.
O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos registrou preocupações relacionadas a práticas de trabalho forçado ou compulsório naquela região.
Isso merece investigação e não deve ser minimizado.
Entretanto, reconhecer essas denúncias não permite concluir que toda a produção chinesa seja realizada por “trabalho escravo” ou que esse seja o mecanismo que explique sozinho o crescimento econômico do país.
A expansão econômica chinesa possui consequências geopolíticas evidentes. Empresas, bancos e instituições chinesas participam de projetos de infraestrutura, mineração, energia, telecomunicações, indústria e comércio em diferentes continentes.
Existe uma estratégia estatal chinesa de desenvolvimento, segurança econômica, acesso a mercados, tecnologia e projeção internacional. Também existem empresas procurando consumidores, fornecedores, matérias-primas e lucro.
As duas coisas podem coexistir.
Em vez de perguntar apenas se a China está “dominando o mundo”, talvez seja mais produtivo observar onde investe, quais ativos considera estratégicos, como financia seus projetos e quais benefícios e riscos ficam para os países que recebem esses investimentos.
É comum encontrar a afirmação de que a China está há décadas na África e que sua presença “não melhorou em nada” a vida dos africanos.
A afirmação é ampla demais para ser tratada como fato.
Primeiro porque a África não é um único país. São dezenas de países, com governos, economias, recursos naturais e relações com a China bastante diferentes.
Segundo porque existem projetos chineses concretos de infraestrutura, transporte, energia, mineração e telecomunicações no continente.
Isso, por si só, também não prova que todos esses investimentos tenham produzido desenvolvimento sustentável para as populações locais.
O Brasil oferece um excelente caso para acompanhar essa discussão praticamente em tempo real.
A BYD iniciou a produção de veículos em Camaçari, na Bahia, em 2025. A primeira etapa começou com montagem utilizando conjuntos de componentes importados, enquanto a empresa anunciou a expansão progressiva das atividades industriais locais.
Existe a crítica de que uma fábrica chinesa no Brasil poderia funcionar apenas como montadora de componentes produzidos na China, deixando pouco conhecimento e valor agregado no país.
Essa possibilidade merece acompanhamento. Mas não é correto afirmar que a fábrica não tenha criado quantidade significativa de empregos locais.
Em março de 2026, a própria BYD informou ter alcançado 3.500 funcionários brasileiros em Camaçari, sendo 97% baianos e 56% moradores do município.
O Governo do Estado da Bahia também registrou programas de qualificação de trabalhadores para funções relacionadas à indústria automotiva.
Portanto, a pergunta economicamente mais importante não é apenas quantas pessoas trabalham na fábrica hoje.
Existe uma ironia histórica nessa história.
Décadas atrás, eram empresas estrangeiras que chegavam à China com capital, produtos, tecnologia e conhecimento industrial.
Os chineses não permaneceram indefinidamente apenas montando produtos desenvolvidos pelos outros.
Construíram fornecedores, formaram engenheiros, desenvolveram marcas, investiram em pesquisa e começaram a disputar mercados com empresas que anteriormente dominavam essas tecnologias.
Hoje são empresas chinesas que chegam ao Brasil.
Países e empresas não precisam operar internacionalmente por altruísmo para que uma relação comercial produza benefícios para ambos os lados.
Emprego importa. Investimento importa. Uma fábrica importa.
Mas conhecimento, fornecedores, engenharia, produtividade, desenvolvimento tecnológico e capacidade de criar empresas brasileiras capazes de competir internacionalmente podem importar ainda mais no longo prazo.
A trajetória chinesa não cabe confortavelmente em duas caricaturas.
Não é necessário imaginar uma China perfeita para reconhecer sua transformação econômica. Tampouco é necessário ignorar autoritarismo, disputas comerciais, denúncias trabalhistas, desequilíbrios econômicos e conflitos geopolíticos para admitir que alguma coisa extraordinária aconteceu naquele país nas últimas décadas.
Shenzhen talvez seja a melhor metáfora dessa transformação.
Uma região escolhida para experimentar a abertura econômica tornou-se parte de um dos principais centros tecnológicos do planeta.
A China aprendeu fabricando. Aprendeu competindo. Aprendeu observando. E, principalmente, criou capacidade para transformar aprendizado em escala.
Durante décadas, a China olhou para o mundo procurando descobrir como produzir, administrar e inovar.
Agora o mundo também olha para a China.
Banco Mundial — estudos sobre Zonas Econômicas Especiais e a transformação econômica de Shenzhen.
Organização Mundial do Comércio — documentação oficial referente à adesão da China, efetivada em 11 de dezembro de 2001.
Organização Mundial da Propriedade Intelectual — Global Innovation Index 2025 e levantamento dos clusters mundiais de inovação.
Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos — avaliação relacionada à situação dos direitos humanos em Xinjiang.
Governo do Estado da Bahia — informações sobre programas de qualificação profissional relacionados à indústria automotiva em Camaçari.
BYD Brasil — informações institucionais sobre contratação e expansão industrial em Camaçari. Quando utilizadas, informações originadas da própria empresa foram identificadas no texto como dados empresariais.